
Como parar de lutar contra o que você sente (e por que tentar mudar nem sempre funciona)
- 6 de ago.
- 4 min de leitura
Entenda como a desidentificação e o BodyTalk ajudam a resgatar o fluxo natural do corpo e da mente.
Como seria se pudéssemos reconciliar as partes que parecem viver rompidas dentro de nós?
Dentro de nós, existem - no mínimo - duas dimensões em constante diálogo:
A dimensão "agente": aquela que inspira confiança, cria caminhos, se move e sustenta o fluxo da vida. Sua natureza é a expansão.
A dimensão "paciente": sensível, vulnerável e dependente. Sua natureza é recolher-se e proteger-se quando algo ameaça a segurança.
Em sua essência, essas duas forças não se opõem. Elas são apenas expressões diferentes da existência.
O problema surge quando tentamos anular uma delas.
Quem tem medo do medo? Quem se irrita com a irritação?
Quando nos deparamos com algo desafiador — sobretudo quando nossa sensação de segurança é abalada — o que mais poderíamos sentir, senão medo ou irritação?
O medo, assim como a irritação, são respostas fisiológicas coerentes e naturais.
Não é um erro do organismo, nem um fracasso da consciência.
São emoções que preparam o corpo para lidar com aquilo que ainda não foi compreendido.
No entanto, aprendemos a desconfiar do que sentimos.
Em nossa cultura, o medo costuma ser confundido com fraqueza ou vitimização. Assim como a irritação é taxada de descontrole.
O resultado disso é uma ansiedade constante e um esforço exaustivo para não sentir.
Tentamos exercer controle total sobre a vida e criamos uma lógica mental excludente: "se eu não tiver medo, serei uma pessoa melhor"; "se não me irrito, serei uma pessoa aceitável".
Mas é justamente essa tentativa de invalidar o que é legítimo que mantém o "sintoma" vivo.
A armadilha do "Eu sou".
Existe uma diferença sutil, porém profunda, na forma como usamos a linguagem no dia a dia.
Quando sentimos ansiedade, raramente dizemos apenas:
“Estou ansioso.”
Muitas vezes, sem perceber, afirmamos:
“Eu sou ansioso.”
Essa mudança transforma um estado (paciente) em uma identidade fixa (agente).
A partir daí, qualquer processo de cura se torna uma guerra contra si mesmo — o esforço exaustivo de tentar apagar quem acreditamos ser.
Uma história real
Recordo-me de um homem que chegou dizendo que queria deixar de se sentir tão mal em relação ao trabalho.
O trabalho o consumia. Dormia mal. Vivia sob constante tensão e ansiedade, considerando que sua entrega era aquém do desejado, porque "era muito ansioso".
Durante as primeiras sessões, todo o esforço dele estava dirigido para uma única meta: deixar de sentir-se daquela forma.
Mas, pouco a pouco, tornou-se evidente que a ansiedade talvez não fosse o problema.
Ela era uma mensagem.
O corpo estava expressando um conflito entre a vida que ele vivia e a vida que já não encontrava sentido em continuar sustentando.
Desidentificar-se dos papéis que ele acreditava que deveria cumprir, que consistia numa enorme lista de "como ser um bom homem", fez com que todo o sistema cardiorrespiratório pudesse se regular.
Está difícil de entender? Faça esse teste.
Para ilustrar como a identificação/desidentificação funciona, pense no seguinte exemplo:
Se alguém disser:
👉 "Você é uma toalha."
Você provavelmente vai sorrir. Não sentirá necessidade de provar o contrário, pois a afirmação não encontra qualquer correspondência na sua experiência interna.
Mas se alguém disser:
👉 "Você é uma pessoa "difícil."
Nesse caso, se houver o menor traço de identificação com essa imagem, um movimento interno de combate começa quase imediatamente.
Você passará a vigiar, controlar e ocultar qualquer sinal que denuncie esse comportamento.
Paradoxalmente, quanto mais você tenta negar essa ideia, mais energia psíquica é consumida, alimentando-a.
Agora, troque "difícil" por qualquer outra coisa que você sente há muito tempo e acha que "é".
Perceba, agora, o que sente. É verdade que vem um mal-estar?
O mesmo pode ocorrer em relação à apelidos e críticas que ficaram estratificados e calados, aí dentro.
O olhar do BodyTalk: eliminação do sintoma x escuta inteligente
No BodyTalk System, a compreensão assume uma natureza orgânica.
O objetivo de uma sessão não é eliminar sintomas à força ou convencer a pessoa de que a dor não existe, ou que deveria sentir outra coisa.
O foco do BodyTalk é restaurar a comunicação interna do sistema corpo-mente, permitindo que o organismo se reorganize a partir da sua própria inteligência inata, desapegando-se de papéis e conceitos pré-selecionados.
Essa pré-seleção não passa por escolhas racionais. São papéis e/ou símbolos que ferem, atribuídos desde que éramos bem pequenos.
A pergunta que muda o processo terapêutico
Em vez de perguntar:
❌ "Como faço para deixar de ser assim?"
A pergunta-chave passa a ser:
✨ "O que essa dor está tentando preservar, proteger ou revelar?"
Quando a pessoa compreende que a forma como sente não são defeitos, mas sim mensagens de um sistema complexo que busca equilíbrio, a fisiologia responde com ajustes mais saudáveis.
Por exemplo, o sistema cardiorrespiratório ganha espaço para se regular e a necessidade de controle diminui.
A visão de não lutar contra o que se sente é ponto de encontro entre sabedorias ancestrais e terapias atuais.
Vedanta: Ensina que o sofrimento surge quando confundimos nossa verdadeira natureza com os conteúdos transitórios da mente (pensamentos e emoções que apenas atravessam a consciência).
Taoismo: Lembra que a resistência gera tensão. A transformação real acontece quando acompanhamos o fluxo da vida, em vez de tentar impô-lo.
Psicologia Analítica (Jung): Ressalta que aquilo a que resistimos, persiste. O que permanece inconsciente acaba regendo nossas escolhas.
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Aponta o fenômeno da evitação experiencial — quanto maior o esforço para controlar emoções desconfortáveis, maior se torna o impacto delas sobre a nossa rotina.
Contemporaneamente, o BodyTalk System é a abordagem terapêutica que permite que essas identificações ocultas, inconscientes, sejam elaboradas, assimiladas e transformadas, através da inteligência corporal, sem o desgastante debate mental.
Deixar de travar a batalha interna
Quando a identidade deixa de estar aprisionada ao sintoma, algo novo se torna possível.
O medo pode aparecer. A irritação e a ansiedade também. Mas eles deixam de definir quem você é.
A força "agente" para de lutar contra a vulnerabilidade "paciente", e ambas voltam a pertencer ao mesmo movimento integrado de saúde.
A cura não acontece quando vencemos uma batalha contra nós mesmos.
Ela começa no momento em que temos recursos e paramos de lutar contra o sintoma, que é somente o mensageiro.
Célia Barboza é especialista em Biorregulação Corpo-Mente e terapeuta PaRama CBP do Sistema BodyTalk desde 2006. Com trajetória clínica iniciada em 1991, é bacharel em Filosofia e especialista em Gestão de Estresse (ISMA-BR).



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