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A Origem da Fala

  • 18 de ago. de 2019
  • 6 min de leitura

Atualizado: 4 de ago.



É bem possível que você já tenha recebido palavras que ferem e palavras que curam. Também deve conhecer o velho ditado: quem não se comunica, se complica.


Sempre achei curioso esse provérŕbio. Com o tempo, comecei a suspeitar de que o problema talvez não esteja na falta de comunicação, mas na forma como compreendemos o que significa comunicar.


Gosto das palavras.


Gosto de escrevê-las. Preciso delas para organizar ideias, aproximar percepções e encontrar a forma mais fiel de expressar aquilo que ainda não ganhou contorno.


Talvez seja por isso que mantenho um blog. Aqui, o pensamento não precisa obedecer ao ritmo das redes sociais nem caber em poucos caracteres. Pode amadurecer no tempo de que necessita.


Escrever sempre me pareceu um gesto de escuta.

As palavras caminham como em uma coreografia.


Pontos, vírgulas e mudanças de parágrafo criam pausas. E as pausas oferecem ao pensamento a oportunidade de respirar.


Quando a dança perde o compasso, basta voltar algumas linhas. O ritmo costuma nos encontrar novamente.


Às vezes, tenho a impressão de que as palavras vão dando as mãos umas às outras até formarem uma roda. Chamamos essa roda de conclusão.


Mas, sendo roda, ela continua girando.

Cada volta inaugura um novo modo de compreender aquilo que, instantes antes, parecia definitivo.


As palavras também criam encaixes.

Dependendo de como se aproximam, geram intimidade ou distância.


Algumas continuam reverberando muito depois de pronunciadas. Não porque convenceram a mente, mas porque tocaram algo mais profundo.


Como um tambor que permanece vibrando mesmo depois do último toque.


Na mesma semana em que comecei a rascunhar esta reflexão sobre comunicação, preparava um projeto de podcast.


Minha intenção era narrar histórias vividas ao longo de muitos anos de prática clínica.

Histórias que transformaram não apenas meu trabalho, mas também a maneira como aprendi a olhar para a vida.


A lista de episódios parecia não ter fim.

Foi então que perdi a voz.


Achei aquilo profundamente curioso.


Trabalho há muitos anos acompanhando processos terapêuticos. Ao longo desse caminho, aprendi que a palavra ocupa um lugar muito menor do que costumamos imaginar.


Na clínica, raramente é uma palavra que transforma alguém.


Às vezes, é um arrepio.

Um suspiro que chega sem aviso.

Uma lágrima que finalmente encontra passagem.


Ou, uma sensação impossível de nomear.

As palavras quase sempre chegam depois.


Elas desenham os contornos da experiência, mas não a produzem.


Mesmo assim, fomos educados a acreditar que compreender significa explicar.


Explicamos.

Acrescentamos exemplos.

Buscamos conceitos.

Organizamos justificativas.

Repetimos o processo até que a mente experimente a agradável sensação de ter entendido.


Mas essa sensação nem sempre é compreensão.


Muitas vezes, é apenas a impressão de que recuperamos o controle.


E o controle, por si só, não é um problema.


Na natureza, dificilmente alguma coisa é simplesmente boa ou ruim. Quase tudo depende da medida.


Sem controle, por exemplo, a bexiga não cumpriria sua função.


O sofrimento começa quando a necessidade de controlar ocupa o lugar da confiança.


Foi somente depois de perder a voz que essa diferença deixou de ser uma ideia para tornar-se uma experiência.


Até então, eu conhecia essa distinção.

Ainda não a compreendia.



Foi somente depois de perder a voz que percebi algo que antes me escapava.


Naqueles mesmos dias, eu estudava um aspecto da Medicina Tradicional Chinesa que sempre me despertou interesse: o Movimento Metal.


Entre os cinco movimentos que descrevem os ciclos da natureza, o Metal corresponde ao tempo do recolhimento, ao outono.


Depois da expansão, chega o momento de voltar para dentro.


As folhas caem.

A seiva desce.

A paisagem parece silenciar para preservar a vida que continua amadurecendo, ainda invisível.


Talvez meu corpo estivesse apenas tentando fazer o mesmo; finalizar um ciclo.


Vivemos como se toda pausa fosse atraso.

Como se recolher-se significasse desistir.


Mas a natureza nunca tratou o silêncio como ausência.


O silêncio também trabalha.


A semente sabe disso.

Antes de romper a terra, permanece recolhida.

Nada parece acontecer.

Entretanto, é justamente ali que a transformação começa.


Percebi que eu vinha fazendo o contrário.


Havia uma lista de projetos.

Compromissos.

Ideias.

Textos.

Um podcast.


Mais uma vez, seguia avançando quando o corpo já diminuía o passo.


Até que ele fez aquilo que eu ainda não havia conseguido escolher;

Silenciou minha voz.


Não vivi aquilo como um castigo.

Nem como um acidente.

Foi uma interrupção precisa.

Uma linguagem.


Em vez de apressar a volta da voz...

procurei compreender por que ela havia decidido partir.


Essa pergunta mudou completamente a direção da experiência.


Meu interesse deixou de ser recuperar a voz.

Passei a querer compreender o silêncio.


Enquanto eu observava esse movimento, algo inesperado aconteceu.

Meu paladar mudou.


Eu, acostumada a preferir alimentos simples, comecei a desejar justamente aquilo que raramente fazia parte da minha rotina.


Ultraprocessados.

Frituras.

Sabores intensos.


Às vezes, acordava durante a madrugada com vontade de comer exatamente o que normalmente recusaria.


Aquilo me intrigou.


A perda da voz parecia não dizer respeito apenas à garganta.


Todo o organismo participava da mesma conversa.


Foi então que me lembrei da hipótese que havia dado origem a este texto.


Talvez as palavras não sejam apenas instrumentos de comunicação.


Talvez sejam experiências fisiológicas.


Talvez comunicar também seja um acontecimento do corpo.


Quanto mais eu observava, menos sentia necessidade de lutar contra o que estava acontecendo.


Desmarquei compromissos.

Reduzi o ritmo.

Aceitei ajuda.

Dormi mais.

Hidratei-me melhor.

Retomei minhas práticas meditativas.


Não porque tivesse desistido de voltar a falar.

Mas porque compreendi que havia algo mais importante do que recuperar a voz.


Era preciso escutar o motivo de sua ausência.


Percebi, então, que o verdadeiro tratamento não consistia em falar novamente.


Consistia em aprender a permanecer na experiência sem tentar abreviá-la.


Durante aqueles dias, certas perguntas me acompanharam quase o tempo todo.


Quem eu seria se minha voz demorasse a voltar?

Como seria viver sem poder falar?

Ou falar e não ser compreendida?

Como seria não encontrar um espaço de escuta?

Ou sentir que, para ser percebida, fosse necessário gritar?


Pela primeira vez, toquei — ainda que de forma muito breve — uma experiência vivida diariamente por tantas pessoas.


E compreendi que nenhuma quantidade de explicações substitui a experiência de sentir-se verdadeiramente encontrado pelo outro.


Foi nesse momento que a palavra presença deixou de ser um conceito.

Tornou-se uma experiência.



Foi nesse período que compreendi, com mais clareza, algo que observo há muitos anos na clínica.


Quando apenas a mente está presente, ela quer explicar.

Organiza argumentos.

Constrói justificativas.

Produz narrativas coerentes.


Mas coerência não é, necessariamente, conexão.


Enquanto a mente procura compreender por conceitos, o corpo continua vivendo a experiência.


São linguagens diferentes.


Talvez seja por isso que algumas pessoas consigam contar, com riqueza de detalhes, a própria história e, ainda assim, permaneçam distantes dela.


Conhecem os fatos.

Mas ainda não os compreenderam.


As transformações mais profundas raramente acontecem quando encontramos uma explicação melhor.


Elas acontecem quando finalmente sentimos aquilo que passamos anos tentando explicar.


Pensei também sobre o grito.


Durante muito tempo imaginei que ele fosse o contrário da delicadeza.


Hoje já não tenho tanta certeza.


O grito, muitas vezes, não nasce da raiva.


Nasce da falta de espaço.

Da angústia de não ser ouvido.

Da sensação de que somente aumentando o volume alguém finalmente perceberá o que tentamos dizer.


Lembrei-me de uma cena comum.


Um adulto grita com uma criança para que ela solte o celular.


Escutamos a bronca.

Mas, talvez, a frase verdadeira seja outra.


*"Tenho medo de te perder."*


Quantas vezes o afeto chega disfarçado de autoridade?


Quantas vezes o medo veste a roupa da irritação?


E quantas vezes ouvimos apenas o som das palavras, sem perceber o que tenta nascer por trás delas?


Talvez estejamos perdendo a capacidade de dizer o essencial.


Não porque nos faltem palavras.


Mas porque nos falta presença.


Aprendemos inúmeras estratégias para convencer.

Poucas para permanecer.


Complicamos o simples.


Substituímos a vulnerabilidade pela argumentação.


Falamos antes de escutar.


Respondemos antes de sentir.


As palavras, então, deixam de servir ao encontro.

Passam a servir à defesa.


Guardamos conversas importantes.

Silenciamos despedidas.

Adiamos declarações de amor.


Como se o corpo não estivesse sussurrando o tempo inteiro:


"Devagar com a razão"


Perder a voz não interrompeu minha comunicação.


Interrompeu a ilusão de que comunicar depende, antes de tudo, de falar.


Foi durante aquele silêncio que o projeto do podcast também mudou.


Já não me interessava apenas contar histórias.


Passei a me perguntar quais histórias realmente merecem ser contadas.


O que vale a pena dizer?


E, antes disso, de que lugar nasce a nossa fala?


Continuo amando as palavras.


Talvez ainda mais do que antes.


Escrever continua sendo uma das formas pelas quais organizo o pensamento e compartilho aquilo que descubro pelo caminho.


Mas hoje sei que as palavras não inauguram o encontro.

Apenas lhe dão forma.


Dr. John Veltheim ensinou que "compreender é diferente de conhecer".


Durante muitos anos achei que compreendia essa frase.


Foi preciso perder a voz para começar a experimentá-la.


Talvez a origem da fala nunca tenha estado nas palavras.


Talvez esteja muito antes delas.


No instante em que alguém encontra espaço suficiente para sentir.


Porque a fala verdadeira não começa na boca.


Começa na presença.


Por Celia Barboza.








































































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CELIA BARBOZA

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