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Como ser uma batata

  • 18 de mar.
  • 2 min de leitura

Como ser uma batata


Ser uma batata, à primeira vista, parece pouco ambicioso. Não corre, não posta, não opina sobre nada. Não faz networking, não participa de reuniões improdutivas, nem acorda às cinco da manhã para cumprir tarefas. A batata, simplesmente… é.


E talvez seja exatamente isso que a torne uma referência silenciosa, e um pouco subestimada, para o momento.


Hoje, existir já não basta. É preciso provar que se existe, de preferência em alta definição, com boa iluminação e uma legenda espirituosa.

Cada pensamento vira conteúdo, cada conquista vira anúncio, empacotados em 8 segundos, e cada momento de descanso vem acompanhado de uma leve culpa.

A vida virou uma vitrine, e nós, vendedores incansáveis de nós mesmos e da salvação do mundo.


A batata, por outro lado, não performa, não acorda pensando em engajamento.

Não se preocupa com sua “marca pessoal”. Não tem crises existenciais porque alguém colheu mais curtidas do que ela, até porque, sejamos honestos, a batata nem tem celular, o que já a coloca vários passos à frente, em termos de saúde mental.


Uma batata aceita que nem todo dia estará no cardápio. Que há uma dignidade imensa em simplesmente estar presente, ainda que quieta, ainda que imperceptível.

É reconhecer que a pressão constante para ser interessante, produtiva e admirável, talvez seja… um pouco demais, como viver permanente numa fritadeira dessas modernosas, para ser algo novo o tempo todo.


E veja bem, a batata não é inútil. Pelo contrário. Ela é versátil, resiliente, alimenta multidões. Só não sente necessidade de transformar isso em um currículo ou em uma thread motivacional. Ela cumpre seu papel sem precisar narrá-lo.


Ser uma batata também é saber lidar com as fases. Às vezes  está inteira, firme, com casca. Às vezes está meio amassada. Em outras, virou purê. 

A diferença é que a batata não entra em pânico por isso. Ela não se compara com outras batatas “bem resolvidas” e cheias de aditivos artificiais. Ela simplesmente segue… sendo batata, substancial e essencial.


Ser uma batata não é desistir, é rever a necessidade do espetáculo constante. É escolher, de vez em quando, não performar. Não otimizar. Não impressionar. Ficar quieta e deixar uns brotos brotarem. 


Talvez o segredo esteja aí: fazer as coisas sem a obrigação de parecer incrível o tempo todo.


E, convenhamos, há algo profundamente libertador em não precisar ser incrível o tempo inteiro.


 
 
 

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CELIA BARBOZA

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